sábado, 5 de janeiro de 2013

Contos de Fadas por Luís Fernando Veríssimo

VARIAÇÕES


           Todos conhecem a clássica história de Branca de Neve e os Sete Anões. De como a madrasta perguntou ao espelho mágico se existia no mundo alguém mais bonita do que ela e o espelho respondeu: "você quer em ordem alfabética?".  De como a madrasta resolveu se vingar, mandando matar sua filha de criação, Branca de Neve. De como o caçador encarregado de matar Branca de Neve ficou com pena dela e, num gesto humanitário, exclamou: "quanto você me dá para você fugir?". De como Branca de Neve fugiu pela floresta e descobriu uma casinha com sete caminhas, sete cadeirinhas, sete escovinhas de dente e chegou a uma conclusão surpreendente: " Aqui deve morar um gigante com hábitos estranhos". Mas os sete anõezinhos chegaram do trabalho - eram lenhadores e estavam derrubando arbustos - e adotaram Branca de Neve.
        Ao contrário do que se comenta, nunca houve nada entre eles. Uma noite um dos anõezinhos se embriagou e invadiu o quarto de Branca de Neve, mas ela o jogou pela janela. Depois dessa noite Branca de Neve comprou um pequinês para manter os anõezinhos à distância. A madrasta descobriu que Branca de Neve ainda vivia e, disfarçada de bruxa, foi à casinha oferecer uma maçã envenenada a Branca de Neve, que morreu. Mais tarde, um Príncipe encantado despertou Branca de Neve da morte com um beijo e os dois se casaram. Anos depois, algo desencantada com o Príncipe, Branca de Neve daria sua opinião sobre o marido: "Gostei da maçã."
         Mas existem outras versões da mesma história. Por exemplo: Branca de Neve e os Sete Pecados Capitais.
          Branca de Neve devia levar uma cesta com pastéis para sua vovozinha que morava numa casa de chocolate. No caminho encontrou os sete pecados capitais, de chapeuzinhos vermelhos. A Inveja, de olho na cesta de Branca, tenta convencer os outros a atacarem a menina. A Gula adere ao plano assim que fica sabendo dos pastéis. A Luxúria acha a Branca jeitosinha e também concorda. A Ira, que está sempre querendo briga, quer atacar logo. Mas a Soberba, por não querer se rebaixar a tanto, e a Preguiça, por preguiça, não concordam. Branca de Neve entrega suas cestas às assaltantes e estas, para conterem a Luxúria e a Ira, que não querem os pastéis, querem a Branca, entregam a cesta para a Avareza segurar e é claro que nunca mais a conseguem de volta. Enquanto isso, na sua casa de chocolate, a vovozinha entretém o Lobo Mau com bolachinhas, absinto e trechos de uma edição de De Sade para Velhinhas na frente do fogo, servidos por Joãozinho e Mariazinha. Batem na porta e é um Príncipe anão.
           Outra versão é a da Branca de Neve e os Sete Samurais.
         Estamos no Japão durante a dinastia Ping. Uma guerra feudal sacode o país. Depois, vão ver, não é uma guerra feudal, é um terremoto.
            Cai a dinastia Ping.
         Branca de Neve chega ao castelo de Toshiro Mifune, interpretado por Toshiro Mifune. Ele é o líder de seis samurais, todos interpretados por Toshiro Mifune, mas um é transistorizado. Os sete samurais adotam Branca de Neve e a proíbem de ir ao baile do clube onde o Príncipe Yamaha escolherá uma esposa. Branca de Neve, ajudada por uma fada madrinha (Toshiro Mifune), acabará indo ao baile montada numa abóbora puxada por seis ratos (a varinha mágica, fabricada em Hong Kong, não funcionou). Quando dá o terremoto da meia-noite, Branca de Neve sai correndo do palácio, mas deixa cair sua botina na escadaria. Ao ver o tamanho do sapato, o príncipe desilude-se e tenta o suicídio com uma maçã envenenada, mas não consegue segurá-la com os pauzinhos e desiste.
          A dinastia Ping se levanta.



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