terça-feira, 2 de abril de 2013

Acalmo meus olhos na parede branca
e me afogo em mármore e marfim.
Só os restos dos músculos se contorcem tensos.
Na minha última morada,
acendo velas e faço minhas orações:
- Espero o perdão dos tempos.
E ainda assim, escondo vergonhas e desatinos de uma infância indigna.
Rangendo os dentes, renovo o horror incompreensível,
e raspo da minha carne as asperezas que me legaram eles.
Eles! Sempre eles, os culpados por tudo - por tornarem EU aquilo que fui e serei sempre:
mutável, desprezível, incansável e torto.
Como desiguais e mutáveis são meus anseios e amores.
O sabor do vento musgo me enche as pálpebras-cetim.
E enquanto espero, enquanto me torno parte deste abrigo cego,
descanso os olhos no nada que há em mim.

Lisiane Freitas

segunda-feira, 18 de março de 2013

Com agulhas espetadas nos olhos
cego o mundo à minha volta.
Eles, que já há tempos nada veem e nada esperam,
Mas que buscam insanos outros poréns.
Emaranhados em desejos secos,
sentem o nada que o futuro lhes prepara.
Na anestesia cotidiana, pastam alegremente
Enquanto seguem para lugar nenhum.
Afasto-me do mundo e sopro poesia sobre meus pés.
É o vento que sussurra em meus ouvidos
e a luz que minha língua prova tem o acre da cidade velha.
Do alto da montanha decido os rumos e os personagens.
Brinco que deus e de diabo - envolvo-me em meus próprios braços -
E selo com um beijo meu pacto solitário.
Rasgam-se as peles. Os pelos caem com os dentes que a carne esquece.
Caem as carnes frouxas, abrem-se as veias, escorre o sangue ralo.
Empilham-se os ossos, apaga-se a mente,
Encerra-se o mundo.


Lisiane Freitas